A crise climática, muitas vezes percebida como um desafio distante, possui raízes profundas em nossas escolhas diárias, especialmente no que se refere ao consumo e descarte de alimentos. Uma parte considerável da questão climática reside nas prateleiras dos supermercados, nos centros de distribuição e, inevitavelmente, no lixo orgânico. O desperdício alimentar, responsável por até 10% das emissões globais de gases do efeito estufa, tornou-se uma das frentes mais urgentes na busca por um futuro mais sustentável e na modernização do comércio varejista brasileiro. Neste cenário, o setor de frutas, legumes e verduras (FLV), frequentemente subestimado, surge como um ator central.
Setor de Hortifrúti: Aliado Estratégico do Brasil Contra o Desperdício Alimentar e as Alterações Climáticas
Em um momento crucial, Marco Perlman, cofundador e CEO da Aravita, destaca o papel vital do setor de hortifrúti na agenda climática global. No cenário internacional, o Brasil alinha-se a iniciativas como o Food Waste Breakthrough, liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que visa cortar pela metade o desperdício alimentar até 2030, priorizando a redução das emissões de metano. Concomitantemente, o país desenvolve a Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, em colaboração com a Embrapa, fortalecendo seus compromissos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 2, 12 e 13. Estes esforços convergem para uma clara conclusão: a sustentabilidade ambiental é indissociável de uma gestão alimentar eficiente.
Os números refletem a urgência da situação: 19% dos alimentos produzidos mundialmente são desperdiçados pelos consumidores, e outros 13% são perdidos antes de chegarem ao varejo, enquanto 733 milhões de pessoas ainda sofrem com a fome. No Brasil, com sua crescente urbanização, que concentrará 80% do consumo alimentar até 2050, o impacto dos resíduos orgânicos é ainda mais alarmante, tornando-se o principal material aterrado em muitas cidades e ameaçando dobrar as emissões sem intervenções. No varejo, dados da Pesquisa de Eficiência Operacional 2025 da ABRAS indicam que as maiores perdas ocorrem justamente nos perecíveis, com FLV registrando 4,73% de perdas, seguido por padaria e confeitaria (4,62%) e rotisseria (3,66%). Estes números revelam um desperdício silencioso, mas com vastas implicações econômicas e ambientais.
É nesse contexto desafiador que a inteligência artificial (IA) surge como uma força transformadora. Ao analisar dados históricos de vendas, sazonalidade, características regionais e a complexidade logística, a IA pode calcular o pedido ideal para cada item, em cada loja, diariamente, ajustando-se às variações previstas de demanda. Varejistas que já adotam esta tecnologia têm observado reduções de até 25% nas perdas e 30% nas rupturas (falta de produtos), convertendo áreas de alto risco em centros de previsibilidade. Essa eficiência não apenas beneficia o desempenho financeiro das empresas, mas também contribui para a diminuição das emissões de carbono, a preservação dos recursos naturais e o alinhamento do varejo com as metas internacionais de sustentabilidade.
Cidades brasileiras como Curitiba, Florianópolis e Rio de Janeiro, pioneiras na luta global contra o desperdício, demonstram que políticas urbanas integradas podem reconfigurar os sistemas alimentares. Paralelamente, o avanço das tecnologias preditivas no varejo indica que a solução está ao nosso alcance, em decisões tomadas no cotidiano das operações. O combate ao desperdício transcende a esfera da política pública e se torna uma prática operacional fundamental, embasada em dados e harmonizada com os compromissos climáticos.
É inegável que, para o mundo limitar o aquecimento global e reduzir as emissões de metano, é imprescindível direcionar atenção àquilo que deixamos de consumir e que se deteriora. Se o Brasil almeja uma posição de liderança climática, a gestão eficiente de alimentos frescos deve ser elevada à categoria de estratégia de Estado e de mercado. A inteligência artificial, ao compreender a complexidade de produtos como a banana madura e o tomate fresco, revela que não há futuro sustentável sem sistemas alimentares mais eficazes, transparentes e resilientes. Varejistas que minimizam o desperdício não apenas otimizam seus estoques, mas contribuem ativamente para redefinir a relação entre alimentação, clima e desenvolvimento, forjando um caminho para um futuro mais próspero e equilibrado.